Redação

25 março 2020

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Estudantes no CRUSP abandonados diante da pandemia da COVID-19

Em meio ao caos do coronavírus, USP abandona estudantes de baixa renda que vivem dentro da universidade

Os moradores do CRUSP que já sofriam com problemas nas estruturas do prédio há muito tempo, estão abandonados neste momento de pandemia do COVID-19.

De acordo com informações da moradora  e estudante de pedagogia, Cacau Prado, em entrevista ao site Yahoo, no dia em que foi noticiado o primeiro caso confirmado de coronavírus na USP, em 11 de março, parte dos estudantes ficou sem abastecimento de água durante seis dias no CRUSP, por conta de um problema com a Sabesp. “Alguns apartamentos tinham água no chuveiro, mas não na privada, ou vice-versa. Várias pessoas vieram tomar banho na minha casa e, quando acabou, tivemos que ir ao centro esportivo”, explica a moradora.

Dessa forma, é impossível seguir qualquer recomendação dos órgãos de saúde para a prevenção do coronavírus..

Preocupação no bloco das mães

Para as doze famílias que se concentram em um único bloco conhecido como o “bloco das mães”, a condição é mais precária ainda. “Desde a informação do primeiro caso, entramos em quarentena restrita. Tomamos iniciativas rápidas e duras para conter a disseminação do vírus”, afirma uma estudante moradora do bloco das mães, que integra a Comissão de Mães do CRUSP.

“Uma das estagiárias da creche da USP foi diagnosticada com Covid-19, então as crianças estão isoladas umas das outras, e uma delas está com pneumonia. Apesar de estarmos seguindo as orientações da OMS, a universidade não dá nenhum tipo de apoio. Já somos normalmente negligenciadas, mas, neste momento, estamos abandonadas a nossa própria sorte.”

Uma das funcionárias que trabalhava no bloco já estava sob licença por suspeita de Covid-19 quando as moradoras decidiram afastar os empregados terceirizados para que cumprissem a quarentena em casa. Apesar das próprias mães terem se responsabilizado pela limpeza, a universidade não cede os materiais necessários.

Com infos do site Yahoo Notícias

Confira carta divulgada pelo moradores do CRUSP sobre a situação

Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo

São Paulo, 22 de março de 2020

Nós, moradores do CRUSP, viemos solicitar medidas imediatas e em caráter de urgência
com relação a pandemia do novo Corona Vírus/COVID-19.
Frente a evolução em progressão geométrica da doença na última quinzena no Brasil, os
crescentes casos confirmados na comunidade USP, a precariedade do Hospital
Universitário, a quarentena em curso, calamidade pública declarada há poucos dias e a
situação dos estudantes residentes no CRUSP (vulnerabilidade econômica e social,
crianças, idosos, imunossuprimidos, com doenças crônicas e patologias de base), exigimos,
mais uma vez, ações imediatas, uma vez que a Universidade de São Paulo e o Estado têm
por obrigação cuidar de seus estudantes enquanto abrigam os mesmos em apartamentos
na moradia estudantil. Seguem as reivindicações:
– dispensers de álcool em gel nos blocos do CRUSP, preferencialmente um por andar, com
reposição diária;
– posicionamento da SAS para com o HU determinando o atendimento adequado a quem
apresenta sintomas compatíveis ao COVID-19 e sem negligência para qualquer outro tipo
de atendimento necessário, quebrando a hierarquização do SUS imediatamente;
– um representante do CRUSP no Comitê Permanente USP COVID-19;
– manutenção imediata das cozinhas: troca de lâmpadas, tomadas, manutenção nos dutos e
religamento do gás encanado, fogões funcionando, instalação de torneiras e manutenção
nas pias/encanamento possibilitando, assim, alternativas seguras de alimentação;
– manutenção nos blocos: reparos elétricos/hidráulicos, instalação de luz nos corredores,
mobília mínima nos apartamentos, dedetização contra pragas, lavanderias com máquinas
de lavar e secadoras funcionando, reabertura das salas de estudos/vídeo e instalação de
internet nos apartamentos, para garantir permanência mínima e em condição salutar;
– garantia de distribuição dos medicamentos de uso contínuo e controlado, tais como
insulina, benzodiazepínicos, ansiolíticos, antihipertensivos, anticoagulantes, moduladores
de humor, anticonvulsivantes, entre outros;
– aumento da segurança: porteiros nos blocos, uma vez que com o campus esvaziado,
ficamos mais suscetíveis a furtos e invasões de apartamentos (como já ocorrido no último
recesso em dezembro de 2019) e restrição total de acesso ao campus à comunidade
externa;
– dispensa imediata dos trabalhadores terceirizados para que possam cumprir a quarentena
e a manutenção de seus salários, garantindo que se cumpram todos os seus direitos;
– propostas de alternativas de alimentação: seja através da distribuição de alimentos,
marmitas ou auxílio financeiro.

Viemos para a USP para fazer ciência e viver um sonho de vida, em um rico ambiente
universitário como o que encontramos em nosso Campus. A produção cultural, a integração
de conhecimentos e a oportunidade de estudar na maior Universidade da América Latina se
realiza para nós através do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo.
Gostaríamos de saber se a forma que a universidade lida com os residentes nela – sem
manutenção básica e sem resolutividade de problemas há tempos reportados – é compatível
com o propósito do Programa de Permanência Estudantil, e, principalmente, se durante a
pandemia existem condições humanas de mantermos nossas atividades acadêmicas como
está sendo proposto pela reitoria, uma vez que ela fere o princípio de excelência da
Universidade expressos em seu tripé de ensino, pesquisa e extensão.
No início de sua gestão, o reitor Vahan Agopyan afirmou que USP não era entidade
assistencialista. Viemos acompanhando sua conduta desde então: retirada da meia tarifa
para os moradores do CRUSP alegando acúmulo de benefício, total descaso com as
crianças e suas famílias que residem aqui (num bloco próprio na moradia e que não
comporta todas as famílias nessas condições), curto-circuito em apartamentos, falta de
manutenção no campus, auxílios financeiros (moradia e outros programas de permanência)
que há anos não são reajustados no valor de R$400, aulas sendo assistidas no chão por
oferta limitada de disciplina/turma devido a falta de professores. No dia em que fomos
notificados sobre o primeiro caso confirmado na USP, os moradores do Bloco F ficaram sem
água e o fornecimento só foi normalizado 6 dias depois. Fica cada vez mais evidente que
essa é uma política para os estudantes pobres da melhor universidade da América Latina e
que ela não é coerente com o seu legado de excelência.
Exigimos o cumprimento dos deveres da Universidade para com os estudantes
contemplados pelo programa de permanência estudantil da Universidade, não em caráter
assistencialista, uma vez que pedimos o básico. Já foram protocoladas 3 cartas na SAS e
Reitoria, foram realizadas reuniões e só recebemos 5 e-mails respondendo a uma
quantidade reduzida das reivindicações e apresentando prazos – que não foram cumpridos
-. Precisamos de ação imediata, não de e-mails, mais prazos e que sigam usando a
burocracia para justificar negligência. É melhor prevenir do que remediar. A USP,
reconhecida pela sua excelência, não pode ser negligente com seu corpo discente que
carece de cuidado especial, isso inclusive é crime. É inadmissível que estudantes
dedicados a produzir ciência, honrar com seus compromissos acadêmicos e defender o
legado de excelência da USP, tenham seus direitos humanos violados, agudizando a
condição de vulnerabilidade, longe de suas famílias e largados à própria sorte num
momento em que precisamos de apoio.
Esperamos que façam melhor juízo desses que tanto precisam num momento tão delicado
e que tomem medidas necessárias em breve, antes que o pior aconteça.
Sem mais para o momento,
Moradores do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo.

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