Redação

28 março 2019

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Opinião: A importância da juventude nas recorrentes questões ambientais brasileiras

por Bruno Santos, estudante de Gestão Ambiental da USP  e membro do DCE Livre da USP

A saber, quando se atesta que alterações ambientais afetaram futuras gerações,
atribui-se inevitavelmente a terminologia da palavra ‘futuras’ a períodos longínquos,
distantes de nossa conjuntura, de nossa realidade, de nosso convívio. Todavia, a
ideia de futuro deve ser atrelada ao presente, pois tais alterações, tais questões já
nos afetam e continuaram afetando, geração após geração, até que o quadro se torne
definitivamente insustentável e irreversível. Porém, o meio ambiente é visto e tratado
como um recurso econômico.

Por certo, robustecer o capitalismo e otimizar aparatos técnico-científicos pôs
em desacordo: interesses de uma minoria economicamente ascendente e a
preservação ambiental do planeta.

Como resultado, a ação antrópica passou a transformar a dinâmica natural do
meio ambiente em maior intensidade, colocando em risco a existência da natureza e,
por consequência, a sua própria manutenção.

Todavia, discussões em torno das questões ambientais, na tentativa de suscitar
na população uma conscientização a respeito do tema, além de ainda serem poucas,
acontecem de forma fragmentada.

Eventualmente, apercebe-se que a cargo de um governo que intenta: reduzir a
“demora” no licenciamento ambiental, flexibilizar a legislação que regula a exploração
econômica de áreas verdes preservadas (incluindo a Amazônia), reestruturar os
processos de fiscalização, afirmando que os atuais instrumentos estariam
prejudicando produtores rurais afetados por um “ativismo xiita ambiental” (que deve
acabar), e retirar o Brasil do Acordo de Paris, alegando que o país teria de “pagar um
preço caro” para atender às exigências; a ampliação de tais discussões será
exponencialmente cerceada pela redução/limitação de possíveis espaços de debate,
pela perseguição/deslegitimação de prováveis oradores e pelo sucateamento de
diretrizes e instrumentos estatais que asseguram, constitucionalmente, a preservação
do meio natural brasileiro.

Assim sendo, haja vista que as universidades detêm o papel histórico de
transmissão do conhecimento científico e, em grande parte, da sua própria produção,
constata-se que o papel da educação superior nas discussões sobre o meio ambiente
deve ir além da relação ensino/aprendizagem vista em salas de aula; deve avançar
no sentido de mobilizações extraclasse envolvendo a comunidade acadêmica,
visando a formação do pensamento crítico com relação à exploração racional do meio
ambiente. Por ventura, reunir, debater e propagar contextos e conhecimentos acerca
da área ambiental e socioambiental vem tornando-se cada vez mais necessário
dentro do movimento estudantil.

De certo, a questão ambiental é transversal a maioria das relações vigentes no
país. Reconhecer essa importância e compreender, minimamente, como tais relações
se estabelecem é um dos principais desafios da atual geração, posto que alterar o
meio ambiente é influenciar a economia e a cultura, condicionar o desemprego,
suscitar a desigualdade social, pautar a qualidade de vida, elencar a
autodeterminação dos povos.

Os notórios desastres ambientais, por exemplo, refletem direta e indiretamente
vulnerabilidades de cunho socioambiental, dado que tais desastres afetam de formas
distintas as variadas parcelas populacionais. Dessa maneira, porções sociais que
apresentam elevada vulnerabilidade socioeconômica são definitivamente as mais
afetadas por desastres, complicações e alterações de caráter ambiental,
principalmente nos grandes centros urbanos. Assim sendo, ao confrontar tal
perspectiva a dados da publicação “Cenário da Infância e da Adolescência no Brasil”,
divulgada, no primeiro semestre de 2018, pela Fundação Abrinq – que relata que mais
de 40% de crianças e adolescentes de até 14 anos vivem em situação domiciliar de
pobreza no Brasil, o que representa 17,3 milhões de jovens. Em relação àqueles em
extrema pobreza, o número chega a 5,8 milhões de jovens, ou seja, 13,5% – se
percebe, facilmente, que os efeitos de alterações, complicações e desastres
ambientais afetam, em sua maioria, a juventude brasileira. Por consequência, além
de enfrentar problemas ligados a baixa escolaridade, violência, e mais tarde, a um
frágil mercado de trabalho, essa mesma juventude sofre a cada chuva com
enchentes, a cada verão com deslizamentos, a cada inverno com o saneamento (que
de básico, não tem nada), dificultando sua capacidade de mobilização e inclusão no
cenário social, educacional e econômico.

Por fim, diante dessas breves considerações, constata-se que é necessário que
a juventude se aproprie e passe a ponderar em suas lutas, mobilizações e
reivindicações um dos conceitos mais difundidos pelo ambientalismo: “não há justiça
social, sem justiça ambiental.”

 

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